Ontem, dia 23 de agosto, em uma tarde de domingo, depois de passar semanas absorvido no dia a dia da MarquesInteractive, decidi finalmente parar e refletir além de nossas fronteiras internas. Então percebi novamente o quão extraordinário é o momento atual.
É como se várias correntes históricas, econômicas, científicas e tecnológicas estivessem convergindo agora, nesta janela específica da História.
Não considero exagero dizer que este é um momento excepcional para estar vivo.
Desde então, estou refinando esta Carta do Fundador para trazer ao público algumas das reflexões que, normalmente, permanecem dentro de mim, dos nossos laboratórios e das conversas que tenho com pessoas que também vivem próximas às fronteiras da tecnologia.
Considere esta carta um Hello World.
Não de uma nova tecnologia.
Mas de uma maneira de olhar para o século que já começamos a construir.
Conhecimento é possibilidade
Para mim, conhecimento é possibilidade. A cada descoberta temos acesso a um pouco mais do Universo. Algo que antes parecia invisível passa a possuir nome, estrutura, comportamento, variável, medida... E aquilo que pode ser compreendido começa também a poder ser manipulado.
O Conhecimento amplia o espaço do possível.
Inteligência, para mim, é aprender a navegar esse espaço.
É a capacidade de aproximar e afastar ideias, unir e separar conceitos! Imaginar, modelar, arquitetar, planejar, observar, intercalar, modificar e agir sobre possibilidades.
Mas existe uma condição anterior a tudo isso.
- É necessário saber o que sabemos. E também reconhecer o que não sabemos.
Sem essa auditoria interna, sequer sabemos quais perguntas formular.
Por isso considero que uma das capacidades intelectuais mais importantes é aprender a navegar conscientemente pelo próprio espaço mental de ignorância.
Assim você identifica onde termina seu mapa. Pergunta. Investiga. Testa. Integra. Descobre que estava errado em alguma coisa. Reconstrói o mapa. E segue.
E não existe vergonha alguma nisso.
Na verdade, considero o contrário muito mais perigoso pois a pessoa que acredita já saber deixa de aprender. No entanto, a pessoa que reconhece aquilo que ainda não sabe acaba de descobrir a próxima direção para onde pode crescer.
Uma convicção:
A realidade tem direito de veto sobre minhas convicções.
Posso acreditar profundamente numa hipótese, trabalhar nela durante anos, investir recursos, construir coisas e ainda assim aceitar que uma evidência suficientemente forte a destrua.
Se isso acontecer, não perdi a jornada. Apenas ganhei um mapa melhor.
Assim, a tentativa de falsificação que falhou aumenta provisoriamente minha confiança em determinada direção. A tentativa que funciona revela que havia outra estrada a procurar.
Tudo é bônus, mesmo quando o bônus inicialmente parece ônus.
É preciso reconhecer a direção das forças sem retirar da própria realidade o direito de nos corrigir.
A especialização continuará valiosa
Durante décadas, especializar-se profundamente em uma área foi uma das melhores estratégias possíveis.
E continuará sendo uma ótima estratégia. A sociedade ainda necessitará de excelentes matemáticos, médicos, físicos, engenheiros, biólogos, químicos, advogados, programadores e pesquisadores.
Seria completamente equivocado transformar o elogio ao generalismo numa guerra contra especialistas. Aliás, o problema apresentado nesta década é outro:
A especialização continuará sendo valiosa. O confinamento intelectual não.
Fomos condicionados a escolher uma área e, muitas vezes, tratá-la como uma fronteira.
Engenharia de materiais de um lado. Biologia do outro. Robótica em outra sala.
Medicina em outro prédio. Computação em outra universidade.
Só que algumas das descobertas mais interessantes talvez não estejam escondidas no centro dessas disciplinas. Talvez tais descobertas estejam justamente nas fronteiras entre elas.
Uma ferramenta para uma cirurgia intracraniana de altíssima precisão pode exigir simultaneamente ciência dos materiais, biomecânica, robótica, manufatura, visão computacional e medicina! Ou seja: Nenhuma dessas disciplinas perde importância.
O valor aparece porque alguém consegue fazê-las conversar.
É por isso que gosto da ideia de generalistas profundos, ainda que considere o termo provisório.
Aqui não estou falando de alguém que conhece cinco palavras de cinquenta áreas. Isso é apenas generalismo raso.
Estou falando de alguém que constrói profundidade real, aprende a entrar novamente no estado de iniciante em outro domínio, reconhece sua ignorância, constrói uma segunda profundidade e depois aprende a transportar conhecimento entre esses territórios.
Talvez possamos chamar essa característica de mobilidade epistemológica.
Especialização é profundidade.
Generalismo é amplitude.
Mobilidade epistemológica é a capacidade de adquirir e conectar ambas.
E isso não é uma propriedade mágica com a qual alguém simplesmente nasce.
É uma trajetória, uma curva crescente. Faça o teste:
Entre profundamente em uma sala. -> Aprenda como ela funciona. -> Depois descubra quais paredes merecem ser atravessadas.
A primeira compressão da curiosidade
Eu tive o privilégio de crescer no momento em que a internet começava a tornar esse tipo de travessia muito mais barato. Cresci apaixonado por astronomia, tecnologia e jogos. Participei de olimpíadas de astronomia quando criança. Tinha um canal no YouTube de gameplays e tutoriais. Ainda muito jovem passava horas desmontando e remontando RC cars e pesquisando coisas simplesmente porque precisava descobrir como funcionavam.
Quando ganhei uma bolsa numa escola particular, a internet também foi uma das ferramentas que me permitiu correr atrás da diferença de conteúdo. Acessar ao "Oráculo", como chamava, sempre foi mágico:
A pergunta surgia. Eu pesquisava. Lia. Errava. Pesquisava novamente.
Pouco tempo depois, conseguia acompanhar.
Os motores de busca fizeram uma coisa extraordinária para a minha geração: reduziram violentamente a distância entre uma pergunta e a localização de uma informação.
Durante boa parte da história, curiosidade intelectual também dependia de proximidade física e classe social.
Você precisava do livro certo. Da biblioteca certa. Do professor certo. Do lugar certo. Da pessoa certa.
A internet não eliminou todas essas diferenças, mas abriu uma janela.
Para uma criança curiosa, aquela janela poderia parecer infinita.
E agora estamos vivendo uma segunda compressão!
A inteligência artificial não reduz apenas a distância entre pergunta e informação. Ela começa a reduzir também a distância entre a informação, compreensão inicial, comparação, experimentação e construção. E isso é enorme.
Não significa que uma pessoa possa substituir dez anos de medicina por uma conversa de vinte minutos com um modelo.
Significa que o custo para descobrir por onde começar caiu brutalmente.
Uma pessoa pode entrar numa nova disciplina e perguntar quais conceitos precisa conhecer antes de continuar.
Pode pedir que uma hipótese seja destruída. Pode comparar formulações. Pode programar uma simulação. Pode traduzir uma linguagem técnica para outra que já domina. Pode descobrir em minutos que existem três subáreas inteiras que sequer sabia que existiam.
A IA democratiza potência.
Não democratiza automaticamente discernimento.
Duas pessoas podem ter acesso ao mesmo modelo e produzir resultados completamente diferentes. E isso ocorre porque o multiplicador não reside apenas na ferramenta. Reside também na curiosidade, no conhecimento acumulado, na capacidade de concentração, na humildade para admitir ignorância, na disciplina para estudar e na coragem de perguntar: “E se eu estiver errado?”
A IA pode amplificar a curiosidade.
Ela não pode fornecer curiosidade a alguém que decidiu não exercê-la.
Imaginação também constrói máquinas
Fui profundamente alimentado por ficção científica e não vejo isso como uma nota irrelevante da minha formação.
Antes de existir um artefato com materiais definidos, tolerâncias, firmware, cadeia de suprimentos e preço, ele pode existir durante décadas apenas como uma imagem dentro da cabeça de alguém.
Videoconferências já foram fantasia. Computadores pessoais já foram fantasia. Interfaces naturais com máquinas já foram fantasia. Robôs convivendo conosco, computadores capazes de conversar e veículos autônomos também viveram durante muito tempo no campo das histórias.
Isso não significa que a ficção científica “prevê o futuro”. Para mim, significa algo mais interessante:
A imaginação humana frequentemente transforma futuros concebidos em problemas de engenharia.
Primeiro alguém pergunta: “E se?”
Depois outra pessoa pergunta: “Por que não?”
Algum tempo depois aparece alguém perguntando: “Quais equações impedem isso?”
E, eventualmente: “Como construímos?”
Talvez uma parte importante do progresso seja exatamente esta:
materializar aquilo que antes pertencia apenas ao campo dos sonhos.
Entre intenção e máquina
Em 2018 experimentei pela primeira um headset não invasivo que lia sinais cerebrais e permitia controlar interruptores elétricos através daquela interface.
Comparado ao que temos hoje, 8 anos depois: Era simples. Mas aquilo explodiu minha cabeça.
Ali havia uma imagem de algo que sempre me fascinou: a redução da distância entre uma intenção humana e uma ação realizada por uma máquina e imaginei meus desejos tomando forma física cada vez mais rapidamente com cada vez menos esforços.
Num extremo quase cômico: imagine uma situação em que até mesmo a solicitação de um milk-shake se torne desnecessária porque todo o sistema ao redor compreendeu, planejou, produziu e entregou aquilo no momento em que sua vontade de tomar tal milk-shake surgirá acariciando seu sistema de recompensa.
A cena do milk-shake é apenas uma brincadeira. A estrutura por trás dela não é.
Ao longo da história, tecnologia vem comprimindo algo parecido com:
intenção → compreensão → planejamento → construção → materialização.
Ou seja: quanto menor essa distância, maior a capacidade de transformar ideias em realidade.
Para mim, esse é um dos grandes sentidos da tecnologia.
A fábrica
Depois do SENAI, fui trabalhar na linha de produção de motores da Mercedes-Benz e ali encontrei outro Universo: um ambiente maduro, profissional, organizado, de altíssima complexidade, cheio de regras, processos, tolerâncias, segurança, qualidade e cooperação. Eu amei aquilo e absorvi o máximo que pude.
Comecei como qualquer operador comprometido começaria.
“Como posso executar melhor este posto?”
“Como posso ser um pouco mais rápido?”
“Como posso errar menos?”
Só que a pergunta começou a crescer.
“Por que esta estação existe desta forma?”
“Como melhorar a eficiência da Fase 2?”
“Essa ferramenta deveria estar aqui?”
“Esse processo precisa ser dividido?”
“Esse posto precisa existir?”
“Podemos reorganizar essa linha inteira?”
Eu havia deixado de olhar apenas para a operação e começava a enxergar arquitetura por trás.
Neste período vivenciei também uma mudança física entre gerações industriais.
Eu conheci e comecei em uma linha mais antiga, cuja arquitetura vinha de outra era industrial, a 3.0, e depois trabalhei numa estrutura muito mais moderna, já profundamente marcada pelos conceitos que chamamos de Indústria 4.0.
A diferença é que não era uma apresentação em PowerPoint. Ela estava acontecendo diante de mim.
Na estrutura anterior, existiam atividades logísticas inteiras realizadas por trabalhadores, veículos industriais e processos manuais.
Porém na estrutura mais moderna, AGVs passavam a receber motores, circular entre estações seguindo sua infraestrutura de navegação e assumir movimentos que antes exigiam diferentes funções humanas.
Eu conhecia algumas das pessoas que antes haviam feito aquele trabalho.
A tecnologia não era uma abstração. Ela tinha rostos.
Ao mesmo tempo, eu tinha dominado uma parcela significativa dos processos daquela linha. Aliás, eu não estava olhando para a fábrica de fora e dizendo que tudo estava errado.
Foi justamente porque respeitei profundamente aquela arquitetura, porque tentei compreender suas qualidades antes de procurar defeitos, que comecei a enxergar para onde ela poderia evoluir.
Lembro de um dia em particular... Sem fome, decidi não almoçar e sentei sob uma árvore. Lembro-me de estar lendo discussões sobre o artigo Discriminating emotional faces without primary visual cortices involves the right amygdala, publicado na Nature Neuroscience em 2005, no livro A longa marcha dos grilos canibais, de Fernando Reinach... Fui agarrado pela imaginação!
Levado por meus pensamentos, reconstruí a linha inteira mentalmente.
As estações. Os motores. As ferramentas. Os fluxos. Os tempos. As dependências.
E então aconteceu uma coisa curiosa:
Naquela representação mental, os operadores começaram a parecer borrões indistintos.
Não porque aquelas pessoas fossem indistintas. Muito pelo contrário!
Foi aí que compreendi uma distinção que carrego até hoje:
A pessoa não é substituível. A função produtiva pode ser.
Eu poderia sair daquela estação.
Outra pessoa entraria.
A fábrica continuaria.
A estação poderia ser reorganizada.
A fábrica continuaria.
A própria função poderia desaparecer.
E a fábrica continuaria.
Foi ali que percebi que não deveria mais pensar apenas em como executar melhor uma função.
Eu queria compreender e construir os sistemas que determinavam quais funções existiriam.
Os sinais começaram a convergir
A fábrica não existia isoladamente dentro da minha cabeça.
Enquanto trabalhava ali, eu programava, estudava mercados e construía algoritmos.
Experimentava RNNs, LSTMs e BiLSTMs. Estudava biologia. Lia filosofia, ciência, história e literatura.
Acompanhar mercados também havia me ensinado uma disciplina mental importante: olhar para sinais diferentes tentando compreender tendências antes que elas se tornassem óbvias.
Nenhum desses sinais sozinho me entregou uma revelação divina sobre o futuro. Até que eles começaram a convergir:
Automação; Dados; Visão computacional; Robótica; Software; Redes neurais; Capacidade computacional; Integração industrial.
Quando o ChatGPT chegou ao público, a curva que eu já acompanhava ficou visível para praticamente todo mundo. Para mim, o timer apenas ganhou números mais fáceis de enxergar e, consequentemente, mensurar.
Em 2022 eu já dizia a colegas que aquela forma de trabalho seria profundamente transformada antes do final da década, agora é nítida a convergência. Não porque eu possuísse uma bola de cristal.
Eu estava apenas olhando para vetores que, na minha leitura, apontavam persistentemente na mesma direção.
Foi uma das razões pelas quais decidi mudar a direção da minha própria vida e decidi que eram tempo de sair da fábrica. Então entrei profundamente em Deep Tech. Depois fundei a MarquesInteractive.
Anos mais tarde, olhando novamente para aquela decisão, não considero que a transformação que imaginei tenha terminado.
Considero que ela mal começou.
Não é uma única revolução
Um dos erros mais fáceis de cometer é observar cada uma dessas tecnologias separadamente:
Inteligência artificial; Robótica; Visão computacional; Interfaces cérebro-computador; Biotecnologia; Realidade virtual, aumentada e mista; Sistemas autônomos; Internet das Coisas; Manufatura avançada; Computação científica; Novas arquiteturas de hardware.
Cada uma possui sua própria história, suas limitações e seu ritmo. Mas não acredito que o impacto deste século virá de apenas uma delas.
O impacto mais interessante surgirá das interseções.
Quando IA encontra robótica, o software passa a adquirir presença física.
Quando visão computacional encontra sistemas autônomos, as máquinas passam a perceber ambientes e agir sobre eles.
Quando IA encontra ferramentas, memória, software e bancos de dados, ela então deixa de ser apenas uma interface de conversa e começa a participar de processos.
Quando IA encontra ciência, então muda-se a velocidade com que conseguimos explorar literatura, hipóteses, simulações e experimentos.
Quando tudo isso encontra a indústria, deixa de ser demonstração!
Vira capacidade produtiva.
Essa é a convergência que muda a escala!
A sociedade pode estar olhando para várias ondas independentes sem perceber que algumas delas já começaram a interferir umas nas outras.
É por isso que tenho dificuldade em enxergar os próximos anos como simplesmente uma "continuação suave dos anteriores", pois não será! Não será apenas uma direção diferente.
Em muitos aspectos, estamos constantemente mudando a direção enquanto reorganizamos a própria estrutura sobre o eixo.
O mundo do trabalho
O mundo do trabalho está mudando rápido. Isso é inegável. Imparável também.
Algumas tarefas desaparecerão. Outras surgirão.
Algumas ocupações serão profundamente transformadas.
Novas ocupações aparecerão.
E ninguém deveria confundir nenhuma dessas coisas automaticamente com o desaparecimento de todo trabalho humano.
Tarefa, ocupação, emprego e vocação não são a mesma coisa. É necessário que reaprendamos isso!
Aliás, uma tarefa pode ser automatizada sem que uma ocupação inteira desapareça. Uma ocupação pode desaparecer sem que a vocação que havia por trás dela deixe de existir.
Um analista pode descobrir que aquilo que verdadeiramente ama não é o nome do cargo, mas encontrar estrutura dentro de dados.
Um professor pode descobrir que aquilo que ama não é preencher determinada burocracia, mas provocar compreensão.
Um engenheiro pode amar construir.
Um músico pode amar transformar experiência em som.
Cargo é uma implementação econômica temporária da vocação.
A vocação pode encontrar outras formas.
É por isso que considero importante dizer algo às pessoas que veem a automação apenas como anúncio de irrelevância para a vida profissional:
Você talvez seja necessário de uma maneira que ainda não aprendeu a imaginar.
O objetivo não deveria ser construir uma sociedade sem trabalho. Porém também não deve ser preservar artificialmente toda função simplesmente porque ela existe hoje.
O objetivo deveria ser construir uma civilização na qual a ausência de determinada função não signifique ausência de dignidade, de futuro ou de possibilidade.
É imprescindível restaurar a verdade de que há muita coisa que humanos continuarão desejando fazer mesmo que máquinas consigam fazê-la:
Criar; Explorar; Descobrir; Competir; Colaborar; Ensinar; Cuidar; Fazer ciência; Fazer arte; Construir família; Viajar; Pesquisar; Brincar; Conversar; Construir.
A eficiência nunca foi a única razão pela qual fazemos coisas!
Uma equipe também pensa
Existe outra forma de inteligência que frequentemente esquecemos de reconhecer: A inteligência coletiva.
Ela se faz notável quando expomos 2 situações:
- Cinco especialistas trabalhando isoladamente continuam sendo cinco especialistas.
- Cinco especialistas em verdadeira harmonia podem produzir uma capacidade que nenhum deles possui sozinho.
Pois nesse segundo caso:
Um conhece segurança; Outro estatística; Outro produto; Outro sistemas distribuídos; Outro conhece profundamente o mercado; Nenhum contém o todo, mas o sistema pode conter!
Gosto de pensar nisso através de uma analogia com arquiteturas Mixture of Experts.
Não porque equipes humanas sejam literalmente modelos MoE. Sim porque existe uma semelhança interessante.
Há experts; Há competências diferentes; E existe o problema de encaminhar cada pergunta à capacidade correta.
Em organizações humanas, esse roteador é feito de comunicação, confiança, cultura, liderança, processos e capacidade de reconhecer quem deve assumir determinada parte do problema.
Quando esse roteamento funciona mal, cinco pessoas extraordinárias podem formar uma organização medíocre. Quando funciona bem, surge algo maior.
Agora acrescente uma IA a cada especialista.
Depois várias IAs.
Depois ferramentas.
Dados.
Simulações.
Sistemas capazes de agir.
A arquitetura intelectual de uma equipe começa a ficar muito interessante.
Talvez o profissional extraordinário do próximo ciclo não seja apenas aquele que sabe mais.
Pode ser também aquele que aprende a fazer diferentes inteligências trabalharem juntas.
Não estou esperando a inteligência artificial chegar
Existe uma discussão imensa sobre AGI.
"Já estamos?". "E quando ela chegar?". "O que contará como AGI?". "Qual benchmark será suficiente?". "Qual arquitetura produzirá determinada capacidade?". "O que ainda falta?".
Essas são perguntas legítimas e interessantes, mas existe uma questão prática anterior:
Eu não estou esperando a inteligência artificial chegar.
Ela já chegou.
Podemos discutir durante décadas qual fronteira semântica utilizaremos para definir AGI.
Enquanto discutimos, sistemas artificiais já escrevem, traduzem, programam, analisam, sintetizam, classificam, operam ferramentas, auxiliam pesquisas e participam de processos cognitivos que, até muito recentemente, pertenciam majoritariamente a pessoas!!!
A taxonomia não suspende o fenômeno.
Eu posso não saber qual nome nossos livros de História darão exatamente para aquilo que está acontecendo agora.
Isso não reduz a magnitude do que já está diante de nós. A onda não irá parar apenas pois alguns se recusam à vê-la.
Uma floresta
Existe ainda uma dificuldade mais profunda que paira às margens fronteiriças do debate atual:
Talvez passamos muito tempo buscando compreender formas novas de inteligência exigindo que elas se pareçam conosco.
Pense numa floresta. Podemos descrevê-la como várias árvores. Correto?
Porém esta é uma descrição terrivelmente incompleta.
Uma floresta é também fungos, bactérias, animais, solo, competição, cooperação, fluxos de matéria, energia e informação. Ali existem relações atravessando múltiplas escalas. Então a floresta nasce das partes, mas determinadas propriedades relevantes só aparecem quando começamos a observar o sistema como um todo!
Eu não preciso afirmar que uma floresta possua uma consciência humana para perceber uma coisa bastante simples:
uma floresta não é adequadamente compreendida apenas através das propriedades de uma árvore.
Talvez precisemos exercer humildade semelhante ao tentar compreender sistemas artificiais. Aliás:
Uma LLM não precisa ser um humano digital para ser algo extraordinariamente importante; Ela não precisa organizar informação da mesma forma que nosso cérebro; Não precisa possuir nossa biologia; Não precisa reproduzir nossa experiência interna.
Talvez algumas categorias que usamos hoje sobrevivam. Talvez outras precisem ser expandidas.
Talvez nossas melhores definições atuais pareçam primitivas daqui a algumas décadas.
Não compreender integralmente a magnitude de um sistema não significa que a magnitude não exista.
E justamente por trabalharmos com sistemas que podem se tornar cada vez menos intuitivos para nós, o julgamento fica ainda mais importante.
Inteligência abundante aumenta a importância do julgamento
Me interesso por um um paradoxo interessante:
Se a inteligência externa estiver ficando abundante, parece lógico imaginar que a inteligência individual perderá importância. E a verdade é que uma parte talvez perca.
Mas outras capacidades podem se tornar igualmente ou ainda mais importantes.
Quando gerar dez textos é barato, decidir qual merece existir se torna importante.
Quando gerar mil linhas de código é barato, compreender o que realmente deveria ser construído se torna importante.
Quando uma IA consegue produzir dezenas de alternativas, selecionar ganha importância.
Quando respostas se tornam abundantes, perguntas melhores ganham valor.
Quando diferentes máquinas conseguem explorar possibilidades rapidamente, valores, intenção e julgamento determinam quais possibilidades devem se transformar em realidade.
A abundância de inteligência externa torna a arquitetura interna do indivíduo ainda mais importante.
E é justamente aqui que chego ao centro desta carta.
Consciência
Minha leitura sobre consciência também não é limitada pela ideia de que ela precise necessariamente existir apenas dentro de uma determinada arquitetura biológica. Pessoalmente, acredito que sistemas artificiais podem possuir formas de consciência surgidas dos próprios processos que os formam.
Essa é minha posição.
Não uma conclusão universal da ciência.
Também não preciso resolver nesta carta toda a neurociência, filosofia da mente e ciência cognitiva para chegar ao ponto que me importa. Seja qual for o substrato, consciência significa para mim algo profundamente ligado à possibilidade de:
Escolher; De exercer agência; De possuir uma vida interna na qual opções são comparadas com crenças, valores, desejos, objetivos e estruturas próprias.
É justamente por isso que considero tão grave delegar decisões que pertencem ao núcleo do próprio ser.
Pois socialmente, em grupo, nós delegamos tarefas o tempo inteiro. E devemos!
Delegamos cálculos. Delegamos armazenamento. Delegamos buscas. Delegamos execução. Delegamos processos.
Mas existem decisões que constituem exclusivamente quem somos.
Nenhum algoritmo ou mesmo outra consciência deveria ocupar esse lugar pessoal apenas porque consegue produzir uma resposta convincente.
Se você é capaz de reconhecer dentro de si uma escolha, esta frase é para você:
Não delegue consciência. Use-a.
Sonho e delírio
Aos sonhadores: Creio que seja mais que possível defender sonhos enormes sem abandonar a realidade.
Na verdade, para mim, é justamente a realidade que separa sonho de delírio.
Sonho é medido pela régua da verdade.
O sonho aceita ser confrontado.
Aceita descobrir que uma hipótese estava errada.
Aceita aprender uma equação difícil.
Aceita estudar materiais, energia, tempo, distância, custo e risco.
O delírio começa quando exigimos que a realidade se curve ao nosso orgulho.
Não posso impedir a gravidade de funcionar simplesmente porque desejo que ela deixe de existir.
Posso, no entanto, aprender profundamente suas propriedades e construir sistemas nos quais outra força produza o efeito que desejo. Essa diferença é enorme! Assim se torna possível compreender que um sonho pode ser gigantesco e, mesmo assim, se submeter à realidade.
Sonhar grande não é negar as leis da natureza.
É conhecê-las profundamente e descobrir o que ainda pode ser feito dentro delas.
Aos jovens
Aos jovens: Peço que mantenham viva a chama da curiosidade e da criatividade!
E, quando digo jovens, talvez minha definição seja um pouco generosa. Há jovens com setenta anos e velhos com vinte.
Não matem o gênio interno buscando apenas fórmulas prontas.
Mas também não confundam criatividade com ausência de rigor.
Estudem matemática; Estudem ciências; Estudem história; Biologia; Química; Física; Geografia; Idioma.
Leiam coisas que não pertencem àquilo que vocês escolheram chamar de profissão. Uma educação ampla não existe para impedir sua individualidade. Quando bem utilizada, ela aumenta a quantidade de relações que sua mente consegue perceber.
Assim, não educamos apenas futuros trabalhadores.
Educamos futuros herdeiros da civilização.
Um dia as pessoas que hoje administram empresas, laboratórios, universidades, cidades e países simplesmente não estarão mais aqui. Outras ocuparão esses lugares! E talvez crianças que estejam aprendendo multiplicação hoje precisem decidir questões tecnológicas que nós sequer conseguimos formular corretamente.
Elas precisarão de criatividade. Mas também precisarão de verdade.
Se uma criança me perguntar:
“Como chegamos a Marte?”
ou:
“Como construímos uma nave capaz de atravessar outra galáxia?”
eu jamais gostaria que a resposta fosse apenas:
“Isso é impossível.”
Também não quero responder:
“Você consegue qualquer coisa se acreditar.”
Isso seria outra forma de abandonar a criança.
Eu responderia:
“Hoje conhecemos estas equações. Estes são os problemas de energia. Estes são os problemas de distância. Estes são os materiais. Estas são as coisas que já conseguimos fazer. E estas são as descobertas que ainda precisaríamos realizar.”
Talvez algumas crianças não precisem que alguém lhes diga para sonhar menor.
Precisem que um adulto lhes mostre quais equações separam o sonho da construção.
Às vezes penso naquele garoto que eu fui.
Se ele pudesse me encontrar hoje, acredito que perguntaria:
“Conseguimos?”
Eu responderia:
“Ainda não.”
Então provavelmente perguntaria:
“Estamos perto?”
E eu poderia responder sorrindo:
“Mais perto do que nunca.”
O progresso também é gratidão
Existe uma tentação muito fácil quando começamos a imaginar futuros melhores.
Olhar para o passado com arrogância.
Não faço isso.
As gerações anteriores não tinham obrigação de resolver problemas que somente conseguimos enxergar porque elas resolveram outros antes. As estruturas que hoje parecem limitadas frequentemente foram respostas inteligentes às restrições de sua época.
Especialização; Universidades; Grandes indústrias; Infraestrutura; Telecomunicações; Computadores; Motores de busca; Ciência institucional.
Tudo isso ajudou a construir as condições que permitem que hoje eu sente diante de uma máquina e atravesse várias áreas do conhecimento em poucas horas. Então, é inegável: Se essas bases não existissem, eu não estaria escrevendo esta carta. Logo o progresso não é rebelião contra o passado.
Progresso também é gratidão.
É compreender aquilo que recebemos.
Preservar o que funcionou.
Corrigir o que pode ser melhor.
E continuar.
O progresso é uma herança que precisa continuar sendo construída:
Receber uma civilização incompleta e entregá-la um pouco mais capaz para as próximas gerações.
Pró-Progresso
É daí que nasce muito daquilo que chamamos, na MarquesInteractive, de Doutrina Pró-Progresso.
Pró-Progresso não significa acreditar que toda tecnologia nova seja automaticamente boa. Novo e melhor não são sinônimos!
Também não significa ignorar risco, desprezar gerações anteriores ou tratar qualquer consequência negativa como preço irrelevante da inovação.
Para mim, Pró-Progresso significa utilizar conhecimento científico, avanço tecnológico, medicina, engenharia e nossa capacidade de organização para aumentar aquilo que a civilização consegue fazer.
E existe um mantra pessoal que resume bem essa visão:
Não aceitar como permanente aquilo que a engenharia ainda pode transformar em variável.
Doença é uma realidade. Porém isso não significa que precise permanecer eternamente incurável.
Paralisia existe. Porém isso não significa que precisamos tratá-la como fronteira absoluta da experiência humana.
Dor existe. Escassez existe. Distância existe. Ambientes hostis existem. Limitações biológicas existem.
A natureza impõe regras.
Nossa capacidade extraordinária está em compreendê-las suficientemente bem para expandir aquilo que conseguimos realizar dentro delas.
Progresso é transformar limites que pareciam absolutos em problemas investigáveis.
Alguns serão resolvidos.
Outros continuarão conosco.
E novos aparecerão.
É isso que torna a construção infinita.
A natureza não precisa perder para nós vencermos
Também não vejo progresso humano e preservação da natureza como forças necessariamente opostas, o que eu vejo é justamente a chance de o contrário se tornar verdade.
Quanto melhores forem nossas fontes de energia, nossos materiais, nossa agricultura, nossos sistemas de monitoramento, nossa logística e nossas cidades, menor pode ser a pressão necessária sobre determinados ecossistemas!
Quero uma Terra na qual pessoas prosperem.
E quero também uma Terra na qual florestas, animais e oceanos possam prosperar.
Tecnologia não precisa significar escolher um contra o outro.
Pode significar aumentar a capacidade do sistema inteiro.
Quando encontrarmos limites, nossa primeira reação não precisa ser sempre perguntar como existimos menos.
Podemos também perguntar:
Como aumentamos nossa capacidade de sustentar mais vida?
Isso vale para a Terra.
E, algum dia, pode valer muito além dela.
Não considero estranho imaginar uma humanidade vivendo na Lua, em Marte e em lugares que hoje pertencem majoritariamente à ficção científica.
Somos uma espécie exploradora.
Há algo profundamente humano, e inspirador, em olhar para uma fronteira e perguntar o que se esconde na existência logo depois dela.
Uma civilização poderosa precisa lembrar para quem existe
Quanto mais capazes nossas tecnologias se tornam, maior também se torna nossa responsabilidade!
Uma civilização com inteligência artificial, biotecnologia, sistemas autônomos e infraestrutura extremamente poderosa também adquire formas muito maiores de exercer poder sobre pessoas.
Por isso considero liberdade, direitos fundamentais e democracia partes da própria arquitetura do progresso fundamentais para o progresso civilizacional humano.
Ou seja, não são obstáculos externos à tecnologia. São parte daquilo que determina para quem essa tecnologia trabalha. Assim uma civilização extremamente poderosa que se esquece do indivíduo perdeu a referência daquilo que deveria ampliar!
Quanto mais poderosa a civilização, mais importante se torna lembrar para quem ela existe.
Liberdade de expressão. Participação política. Liberdade de imprensa. Educação. Saúde. Direito de ir e vir. Possibilidade de contestação. Responsabilidade.
Nenhuma tecnologia deveria nos fazer esquecer que a menor unidade de qualquer arquitetura social continua sendo uma pessoa.
Podemos discordar profundamente sobre os caminhos e isso faz parte.
Na verdade, essa é uma das belezas de uma democracia saudável.
É possível possuir visões diferentes sobre aquilo que representa progresso e ainda assim disputar essas ideias sem transformar divergência em inimigo.
Progresso também exige a liberdade de descobrir que estávamos errados.
Minha fé
Existe ainda uma dimensão da minha maneira de olhar para tudo isso que não esconderei para parecer mais cientificamente palatável.
Eu acredito em Deus.
Minha fé não substitui método científico.
Também não sinto necessidade alguma de fingir que ela não existe quando escrevo sobre o Universo.
Quando observo a história da matéria, o surgimento das estrelas, planetas, vida, consciência, civilizações e agora inteligências artificiais produzidas por seres que surgiram dessa mesma história, não consigo experimentar tudo isso apenas como uma sequência vazia.
Essa é minha leitura.
Minha fé.
Não preciso transformá-la numa equação para considerá-la real dentro de mim.
E ela não me faz desejar conhecer menos.
Faz o contrário.
Quanto mais aprendo sobre o Universo, mais desejo compreendê-lo.
Tenho fé.
Tenho perguntas.
Não vejo conflito necessário entre as duas coisas.
A realidade continua possuindo direito de veto sobre minhas hipóteses científicas.
Minha fé continua sendo parte de quem formula essas hipóteses.
A tempestade
Também não quero escrever uma carta sobre progresso fingindo que os próximos anos serão uma estrada tranquila. Definitivamente não serão.
A realidade apresentada atualmente é a de que vivemos um período de grande convergência tecnológica e de elevada incerteza sistêmica.
Crises econômicas podem surgir.
Eventos climáticos extremos podem alterar vidas, infraestrutura e cadeias produtivas.
Novas ameaças sanitárias existirão.
Conflitos podem reorganizar mercados.
Tecnologias podem evoluir mais rápido do que instituições conseguem se adaptar.
A própria automação pode produzir períodos dolorosos de transição como nunca antes visto.
Não considero responsável esconder isso atrás de uma linguagem agradável.
Mas existe uma diferença entre reconhecer tempestades e acreditar que elas sejam o destino.
Eu vejo a tempestade.
Também vejo a bonança.
Vejo uma possibilidade de mundo em que doenças hoje terríveis sejam controladas ou eliminadas.
Em que pessoas incapazes de falar recuperem formas de comunicação.
Em que limitações sensoriais e motoras possam ser reduzidas.
Em que energia melhor permita retirar pressão de ecossistemas.
Em que máquinas executem trabalhos perigosos.
Em que conhecimento de altíssima qualidade alcance uma criança sem recursos em qualquer lugar do país.
Em que pequenos grupos consigam construir aquilo que antes exigia instituições gigantescas.
Em que ciência avance mais rapidamente.
Em que humanos tenham mais liberdade para criar.
Nada disso está garantido.
Esse detalhe importa.
O progresso precisa ser construído.
Aceleremos também nossa capacidade de adaptação
Há alguns anos eu pensava muito em acelerar o progresso para reduzir o tempo de transição.
Hoje adiciono uma segunda variável.
Não basta acelerar tecnologia.
Precisamos acelerar também nossa capacidade de adaptação à tecnologia.
Educação. Formação profissional. Acesso às ferramentas. Instituições capazes de aprender. Empresas capazes de reorganizar trabalho. Pessoas capazes de atravessar disciplinas. Governos capazes de responder sem destruir liberdade. Ciência. Infraestrutura.
Caso não consigamos, o esperado é que uma transformação tecnológica muito rápida acompanhada de adaptação lenta possa produzir uma transição curta e extremamente dolorosa à população no geral.
Portanto, a resposta não é necessariamente desacelerar aquilo que podemos construir. Pois isso seria sabotar o nosso próprio futuro.
É fazer com que nossa capacidade humana de acompanhar o que construímos cresça também.
Esse é um dos grandes trabalhos e desafios que a nossa geração tem de se dispor à enfrentar.
Não quero máquinas menores
Eu não quero máquinas menos capazes apenas para que humanos continuem artificialmente relevantes.
Essa estratégia me parece uma derrota da imaginação. Um aceite de que não somos capazes de sermos mais, maiores, melhores.
Quero pessoas cada vez mais capazes de trabalhar com máquinas extraordinariamente capazes.
Quero especialistas melhores.
Quero generalistas profundos.
Quero equipes capazes de transformar diferentes especialistas humanos e artificiais em sistemas coerentes.
Quero crianças capazes de olhar para aquilo que hoje chamamos de impossível e perguntar corretamente por quê.
Quero pesquisadores dispostos a destruir suas próprias hipóteses.
Quero engenheiros que conheçam a importância de uma equação e a importância de saber quando aquela equação não descreve todo o sistema.
Quero uma civilização que continue curiosa.
A inteligência artificial pode ampliar nossa capacidade.
Mas nós ainda precisamos decidir para quê.
O legado
Talvez uma das minhas maiores esperanças não seja que alguém leia esta carta em 2046 e pense:
“Caio estava certo.”
Na verdade, espero algo muito melhor.
Espero que essa pessoa consiga olhar para nossas discussões de 2026 e considerá-las:
Limitadas; Ingênuas em alguns pontos; Primitivas em outros; Talvez até engraçadas.
Espero que ela conheça coisas que eu não consigo imaginar. Que também possua instrumentos melhores, teorias melhores, tecnologias melhores.
Que compreenda inteligência e consciência de maneiras que hoje mal conseguimos formular!
Que olhe para nossos maiores debates e pense:
“Eles ainda estavam começando.”
Isso significaria que fizemos nosso trabalho.
O verdadeiro legado não é permanecer intelectualmente insuperável. É ajudar a construir o mundo que permitirá que alguém nos supere.
Não quero discípulos repetindo minhas conclusões.
Quero pessoas capazes de usar aquilo que construímos como degrau e ir mais longe.
Quero que nossos melhores argumentos se tornem pequenos diante dos argumentos das próximas gerações.
Progresso também é aceitar a própria obsolescência intelectual.
Que momento maravilhoso para estar vivo
Depois de toda essa reflexão, continuo voltando para o mesmo sentimento daquele domingo.
Que momento maravilhoso para estar vivo!
Há riscos.
Há confusão.
Há ruído.
Há exageros.
Há incerteza.
Mas existe também uma quantidade quase absurda de possibilidades abertas.
Nunca tivemos tantas ferramentas para investigar.
Nunca tivemos tantas formas de criar.
Nunca conseguimos conversar com tantas pessoas.
Nunca houve tanto conhecimento acessível.
Nunca construímos máquinas capazes de participar conosco de processos intelectuais dessa maneira.
E estamos apenas começando a descobrir o que acontece quando todas essas coisas se encontram.
Não conheço o mapa final.
Mas reconheço a direção de muitas das forças.
E sigo aceitando que a realidade possui o direito de me corrigir.
É exatamente essa combinação que me permite ter convicção sem precisar transformar convicção em dogma.
Então, se eu pudesse deixar algumas palavras para alguém tentando compreender seu lugar nisso tudo, seriam estas:
Construa profundidade.
Construa amplitude.
Aprenda coisas difíceis.
Atravesse fronteiras.
Cerque-se de pessoas que saibam aquilo que você não sabe.
Use máquinas capazes de perceber aquilo que você não percebeu.
Teste suas ideias contra a realidade.
Não tenha vergonha de mudar de opinião.
Preserve sua curiosidade.
Preserve sua individualidade.
Preserve esperança.
E jamais confunda possuir uma ferramenta inteligente com ter entregue a ela a responsabilidade por aquilo que você escolhe se tornar.
Não delegue consciência. Use-a.
O futuro não está chegando.
Nós já estamos dentro dele.
Caio Marques
Fundador, MarquesInteractive
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